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Presidentes da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa

Ao longo de quase duzentos anos de história da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, passaram pela instituição 60 presidentes. De Soares Franco a Sousa Martins, de Miguel Bombarda a Egas Moniz, de Cid dos Santos a João lobo Antunes e Jorge Soares. Conheça o perfil dos médicos e dos homens que conduziram o leme da SCML.

(Fonte: «A Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa e os Seus Presidentes (1835-2006)»; Artur Torres Pereira, Luiz Silveira Botelho e Jorge Soares; Revisão: Luís Milheiro; Cortesia da Fundação Oriente) 

Soares Franco [1822/1823 e 1836/1837]

Francisco Soares FrancoNa primeira fase da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa (1822) em que os sócios eram médicos, cirurgiões e boticários, portanto com estatutos profissionais e sociais bem diversos (as escolas médico--cirúrgicas só surgiriam em 1836, e as faculdades de medicina em 1911), foi natural que o seu primeiro Presidente Francisco Soares Franco, se impusesse. Provinha da única Faculdade de Medicina do País, onde atingira a categoria de lente.Tinha sólida cultura. Formou-se em Coimbra, a expensas da Casa Pia, em Matemática e Filosofia antes de cursar Medicina. Só desempenhou o cargo de Presidente no efémero período de seis meses de vida da Sociedade.

Retomou tão distinto cargo 12 anos mais tarde, em 1835, na segunda fase da Sociedade, agora com um núcleo de sócios com mais elevadas posições profissionais e culturais.

As suas ideias liberais levaram ao seu afastamento da Universidade de Coimbra (1823), para ser reintegrado dois anos mais tarde.

Deve salientar-se a importância da sua memória de 1836 Sobre o grau de certeza que há na Medicina prática. Neste interessante documento de há quase 170 anos, antecipa que a Medicina não é uma ciência conjuntural e incerta, o que demonstra com os já brilhantes êxitos da época: o mercúrio nas doenças venéreas, a vacinação de Jenner contra a varíola, a cauterização na raiva e o quinino nas febres intermitentes.

A tradução do livro de Corber teve a maior importância para divulgar em português a nomenclatura de Laennec.

Cultivou a poesia, publicada quando jovem, e dedicou-se mais tarde ao jornalismo na Gazeta de Lisboa, interessou-se pelo progresso agrícola tendo produzido e traduzido várias obras.

Lima Leitão [1838/1842]

António José Lima LeitãoLima Leitão, Lente de Clínica Médica e Patologia Médica, e também Director de Enfermaria no Hospital de São José foi um dedicado colaborador de Francisco Soares Franco na criação da Sociedade das Ciências Médicas, da qual veio a ser o segundo Presidente, cumprindo cinco mandatos sucessivos.

Adquirira formação médica em Paris, onde chegara em 1805 incorporado no contingente português do exército francês, a qual lhe veio a abrir as portas da carreira na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa.

Ganhou fama a qualidade dos conhecimentos clínicos que transmitia aos seus alunos. Também introduziu a prática das autópsias como método de avaliação dos actos clínicos e de aprendizagem médica.

A sua bibliografia é muito extensa: 60 títulos sobre casos clínicos e novas terapêuticas e vários manuais de ensino. Lima Leitão, dominava o francês, o inglês, o latim e o grego, era cultor de letras tendo publicado interessantes originais de pendor literário e foi autor de traduções cuidadas de obras que considerava merecedoras de divulgação (Eneida, Milton, Virgílio).

No final da sua vida Lima Leitão dedicou-se à homeopatia, abandonando os princípios da medicina científica, facto que lhe trouxe a perda do muito crédito que até então lhe era reconhecido.

Bernardino Gomes [1843/1844 e 1864/1866]

Bernardino António Gomes

Bernardino António Gomes foi um muito prestigiado Presidente da Sociedade das Ciências Médicas graças à riqueza e à versatilidade da sua personalidade, que cultivou díspares áreas do saber, da Matemática à Geologia, da Medicina erudita à Higiene Social, da Botânica às Ciências Geográficas. Tudo praticou numa actividade febril de meio século.

Na juventude, política e liberal, após bacharelato em Matemática, cursou os dois primeiros anos de Medicina em Coimbra para se refugiar em Paris onde completou o curso e se doutorou em 1831.

Por influência do Duque de Palmela segue para a ilha Terceira regressando em 1832, sob as ordens de D. Pedro IV, para desembarcar no Mindelo. No cerco do Porto organiza o serviço médico do exército liberal.


Após a vitória de 1834 concorre à Régia Escola de Cirurgia cuja reestruturação profundamente influencia incluindo, o laboratório farmacêutico e horto botânico, ao mesmo tempo que dirige o Hospital da Marinha. Mantém-se na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa até 1857, ano em que pediu a reforma por motivos de saúde.


Recolhido à sua casa em Santarém, ainda aceitou em 1871 a presidência da Comissão para a Farmacopeia Nacional para o que estava particularmente preparado. O naturalista publicou a flora fóssil do terreno carbonífero de Portugal, as árvores que dão a quina nas possessões de África e, em colaboração, o Catalogus plantarum horto botanici medico-

-chirurgicae Scholae Olysiponensi.


A sua biblioteca com cerca de três mil volumes foi doada à Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa.

Lourenço Moniz [1845/1847]

Lourenço José Moniz

Com formação médica em Edimburgo, Lourenço Moniz, distinto madeirense, aliou brilhante talento parlamentar a uma notável austeridade de carácter. Representou durante dezenas de anos a Madeira no Parlamento, pelo que não chegou a exercer os cargos de Professor e de primeiro Reitor da Escola Médica do Funchal, criada em 1837 e para que havia sido nomeado.

A Sociedade das Ciências Médicas no ano 1845, «após esclarecido que era sócio efectivo» elegeu-o Presidente por unanimidade, sendo Vice-Presidente Magalhães Coutinho. A actividade da Sociedade era muito reduzida, com poucas sessões, escassamente frequentadas e sem trabalho científico. O novo Vice-Presidente Magalhães Coutinho presidiu à Sessão Solene de 22 Agosto de 1846 porque «o Presidente da Sociedade Lourenço José Moniz não estava presente por se achar incumbido pelo Governo duma missão diplomática fora do continente do Reino». E o Presidente seguinte Caetano Beirão considerou em 29 de Março de 1847 aquela missão importante em Africa «donde trouxe uma formosa colecção de História Natural de todos os reinos da Natureza.


Lourenço Moniz não teve qualquer papel relevante na Sociedade, a qual se encontrava quase sem actividade durante o tempo da sua presidência. Ela voltaria a período de prestígio com Caetano Beirão.

Caetano Beirão [1847/1848 e 1853]

Caetano Maria Ferreira da Silva Beirão

O Professor Caetano Beirão, quinto Presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, desempenhou o cargo por duas vezes, em 1847 e 1853. No início do seu primeiro mandato encontrou a Sociedade «numa situação quase desesperada, sem relações externas e sem incitamento interno; parecia querer terminar de inanição». Ele a faria ressurgir.


Foi um invejado clínico, um admirado professor e uma referência política realista. Matriculou-se em Coimbra, na Faculdade de Filosofia e, em seguida, na de Medicina, cujos três primeiros anos concluiu com o maior brilho. Encerrados os cursos após o desembarque do Mindelo, foi autorizado excepcionalmente a exercer prática clínica sob a orientação de um professor, tendo-se envolvido profundamente no combate à epidemia de cholera morbus. Após o desterro do Rei, voltou a Coimbra para concluir o Curso Médico (1836).

Em Lisboa, trabalhou nos Hospitais de São Lázaro, Marinha e Rilhafoles. Da actividade clínica e hospitalar resultaram importantes estudos sobre a cólera, a elefantíase dos gregos e a alienação mental. Colaborou nos estudos para converter o Hospital Rilhafoles em Hospital dos alienados.


Tendo tido grandes dificuldades políticas para ingressar na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, as suas excepcionais qualidades elevaram-no a Lente de Matéria Médica ao fim de 11 anos, sendo considerado um eminente professor.


Nascido e educado no absolutismo, a ele se manteve fiel toda a vida, sendo muito particular e notável a situação de deputado realista na Câmara Constitucional, em 1842 e 1863. Aí defendeu corajosamente a reforma do ensino médico que equiparava os graus a atribuir pelas Escolas Médico-Cirúrgicas de Lisboa e Porto à Faculdade de Coimbra, não obstante a sua apregoada fidelidade «aos seus colegas e mestres lentes da Universidade de Coimbra» (declaração de voto).

Magalhães Coutinho [1848/1850 e 1858/1859]

José Eduardo Magalhães Coutinho

Sexto Presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, o Professor Magalhães Coutinho teve uma vida longa, que lhe proporcionou uma fecunda carreira profissional e académica e uma empenhada participação cívica. Dotado de inteligência viva e vincado carácter, teve uma adolescência conturbada pelas lutas políticas da época, com a família perseguida pelos rigores do partido miguelista. Restabelecido o regime constitucional, concluiu a licenciatura e logo se habilitou a lugares de magistério na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, onde cedo chegou a Lente proprietário, regendo com justa fama a 6.ª cadeira (Partos).


Foi o primeiro médico em Portugal a aplicar o clorofórmio nos partos (1857) e a operar um doente anestesiado pela amylena.


Nomeado Director da Escola na última fase da sua carreira académica, imprimiu ao mandato a força do carácter e o brilho das suas muitas capacidades de reformador. A apetência pela política, marcada pela adolescência, levou-o a aceitar ser deputado às Cortes, entre 1853 e 1856, período em que apresentou uma proposta de reforma das escolas médico-cirúrgicas, que equiparava, em privilégios e títulos, os alunos de Lisboa e do Porto aos da Universidade de Coimbra.

Depois de uma vida muito trabalhosa, com uma grande dedicação à prática assistencial e ao ensino, Magalhães Coutinho abandonou praticamente o exercício da profissão e pediu a jubilação. Aceitou, então, o convite para ser Médico da Real Câmara e Bibliotecário da Real Biblioteca da Ajuda, cargo em que lhe foram preciosos os seus conhecimentos profundos de latim e de grego.


Homem de grande cultura e elogiados dotes artísticos, era também uma voz respeitada de tribuno pela eloquência oratória. Estimado na corte, na comunidade médica e na sociedade da época pelo prestígio como cirurgião e parteiro, o Professor Magalhães Coutinho foi uma personalidade brilhante da medicina portuguesa da segunda metade do século xix.

Pereira Mendes [1851/1852]

José Pereira Mendes

Bacharel em Medicina pela Universidade de Coimbra, o Professor Pereira Mendes veio a adquirir o título de Doutor na Universidade de Paris, tendo sido nomeado Lente proprietário de Patologia Interna na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa quase vinte anos depois. A par da leccionação de temas de medicina, desenvolveu actividade assistencial de muito mérito no Hospital de São José.

Dedicou-se a temas vários de higiene, muito em especial a salubridade das águas e a relação com os surtos de cólera, bem como sobre o recurso às vacinas para a prevenção de doenças transmissíveis.

Os discursos que Pereira Mendes proferiu na abertura dos anos académicos do seu mandato revelam uma inteligência arguta, um pensamento rigoroso, o culto de um estilo requintado de oratória e um espírito preocupado com os problemas sociais, aos quais dedicou grande parte da sua intervenção cívica. Estes méritos justificaram a sua eleição para sétimo Presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa.

Francisco Barral [1852/1853]

Francisco António Barral

O oitavo Presidente da Sociedade das Ciências Médicas, Professor Francisco António Barral, licenciado em Medicina pela Faculdade de Paris, ascendeu por concurso a Lente da Secção Médica da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa.

Durante muitos anos, foi o clínico de Lisboa mais procurado, mais afamado e mais considerado por todos. Nenhuma conferência-médica se julgava completa se não tinha o parecer do Dr. Barral.


Fez parte de várias comissões: reforma do serviço hospitalar, inspecção da botica, história terapêutica de algumas substâncias medicinais.


Escreveu trabalhos de valor sobre o clima da Madeira no tratamento da tísica pulmonar, o estado do ensino da Medicina e da Cirurgia em Portugal e a maneira de o melhorar.

Foram, por sua iniciativa, criados pela primeira vez dois prémios médicos destinados às melhores memórias sobre os medicamentos que poderiam substituir as preparações de quinino nas febres intermitentes das classes pobres em Portugal, Gazeta Médica de Lisboa, p. 179, 1853.


O Professor Francisco António Barral foi considerado, no elogio fúnebre pronunciado pelo Professor Thomaz de Carvalho, como facultativo um prático eminente, como sábio um professor distinto, e como académico um escritor conscencioso; por fim, em todas as condições da vida «um homem de supremo carácter».

José Maria Grande [1844/1845 e 1853]

José Maria Grande

José Maria Grande foi o primeiro director do Instituto Agronómico de Lisboa, Licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra, veio a doutorar-se em Louvaina dezasseis anos mais tarde.

Exerceu Medicina pouco tempo, pois os seus grandes interesses foram a política e a agricultura.

A actividade parlamentar foi em grande parte dedicada a assuntos médicos, o que justificou ter sido eleito Presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa durante três mandatos.

Recebeu voto de agradecimento pela maneira brilhante como representou a Medicina Portuguesa no Congresso Sanitário de Paris, em 1853, em representação do Governo Português.

Tem o seu nome ligado ao Hospital Distrital de Portalegre.

É considerado pelos seus biógrafos como figura nacional do liberalismo, filósofo, poeta e literato distinto.

Arantes Pedroso [1854/1856; 1872/1875 e 1885/1896]

José António de Arantes Pedroso

O Professor Arantes Pedroso consumiu a maior parte da sua laboriosa actividade na «sua Escola» e na Sociedade das Ciências Médicas, onde não foi apenas o Presidente efectivo, mas era «a própria encarnação da Sociedade, nela tudo se fazia sob o seu influxo».

Na sala do Conselho da Faculdade de Medicina de Lisboa assenta um busto em bronze do Professor Arantes Pedroso, oferta da escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, para consagrar os 45 anos de professor na regência da cadeira de Patologia Externa.

Ver concluída a nova escola, assistir ao incremento do ensino médico com a instalação desafogada que em breve iria ter e pela qual tanto lutou, era seu pensamento constante.

Sousa Martins e Alfredo da Costa em elogios históricos focam Arantes Pedroso como académico, professor e clínico. Eduardo Mota, Curry Cabral e Miguel Bombarda, em palavras mais sucintas deram relevo à autoridade, saber, prudência e fino trato que o impunham no meio científico e social em que vivia.Todavia, a falta de uma obra científica leva Reynaldo dos Santos a considerar que o Professor Arantes Pedroso se notabilizou mais pelo seu ascendente moral do que científico.


Os mais ilustres mestres bateram-se durante décadas até ser promulgada a Lei de Junho de 1866 que «tornou livre no território português o exercício da Medicina aos facultativos pelas Escolas Médico-Cirúrgicas de Lisboa e Porto». Serrano considera que nessa longa luta pela igualdade profissional face aos bacharéis de Coimbra, surge a figura majestática, física, intelectual e moral de Arantes Pedroso.

Teotónio da Silva [1856/1858]

Joaquim Teotónio da Silva

Joaquim Teotónio da Silva, 11.º Presidente da Sociedade de Ciências Médicas, «o Teotónio, o clínico ilustradíssimo, o cirurgião notável das traqueotomias» como Matos Chaves se lhe refere, além de devotado à Cirurgia cultivou igualmente a Medicina, tendo regido Patologia Geral durante oito anos, e granjeado a admiração e a amizade dos seus pares.


Ensaiou a anestesia com o clorofórmio nos animais (1847) e generalizou a eterização dos operados. Realizou a primeira extirpação completa do astrágalo (1875) e as três primeiras utilizações do aspirador pneumático de Dieulafoy no tratamento da retenção de urina (1875).


Foi o primeiro cirurgião que praticou a traqueotomia no croup (1851), realizando, até 1871, vinte e duas intervenções com oito casos de cura. Deve salientar-se que nas discussões sobre os hospitais-barracas no Hospital de São José, criticou fortemente a sua instalação, batendo-se por princípios de higiene hospitalar que evitassem as infecções nosocomiais [sic], importantes ideias defendidas há 131 anos.

José António Marques [1860/1861]

José António Marques

José António Marques, médico militar, percorreu vários postos da carreira castrense até chegar a cirurgião da brigada por distinção.

Chefiou vários serviços, jubilando-se como chefe da 6.ª Repartição da 1.ª Direcção do Serviço de Saúde da Secretaria de Guerra.


É considerado o fundador da Cruz Vermelha Portuguesa (1865).


Dedicou-se ao jornalismo médico e dirigiu durante muitos anos o Jornal dos facultativos militares, mais tarde substituído pelo Escholiaste médico. As doenças e a morbilidade no exército constituem o seu trabalho mais importante.


Era possuidor de várias condecorações nacionais e estrangeiras. A consideração de que desfrutava nos vários círculos médicos justificou a sua eleição para Presidente da Sociedade de Ciências Médicas, cargo que desempenhou sem grande relevo, mas com agrado geral.

João José de Simas [1861/1862]

João José de Simas

O Doutor João José de Simas licenciou-se pela Universidade de Montpellier, doutorou-se em Letras (1836) e também em Medicina (1841). Praticou clínica em Lisboa, com uma vasta clientela e um considerável prestígio, que o exercício de vários cargos públicos ajudou a reforçar.

A opinião do Doutor Simas era muito respeitada em assuntos de higiene pública e hospitalar. A sua competência em assuntos de higiene hospitalar foi aproveitada em sucessivas comissões criadas na época: reforma das dietas, formulário da botica, apreciação das condições necessárias para o internamento dos enfermos.

Conciliava «o dom do enciclopedismo» com as características de homem de acção, o que o fez membro de várias academias médicas estrangeiras, possuidor de várias distinções, condecorações e comendas.


Personalidade forte, intervinha nos diferentes fóruns «com ar incisivo e asserções peremptórias». O interesse que sempre mostrou em contribuir para o progresso da profissão determinou a sua eleição para Presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa. Com o decorrer dos anos, face aos abusos das terapêuticas agressivas e à ineficácia da maior parte dos tratamentos populares da época, tornou-se um clínico partidário da expectação, quase eliminando o uso da medicação farmacológica na sua prática médica. De acordo com um seu biógrafo «não legou à posteridade opulenta herança científica, mas o suficiente para que os seus créditos ficassem defendidos».

Abel Jordão [1862/1863]

Abel Maria Dias Jordão de Paiva Manso

O Professor Abel Jordão teve uma vida breve de 41 anos com intenso trabalho. Com sólida formação científica e cultural trazida de Paris, obteve por concurso o lugar de demonstrador da Secção de Medicina da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Este rápido êxito académico logo se acompanhou de importante prática privada – para ele mais um sacerdócio do que uma profissão (no dizer do Professor Thomaz de Carvalho).

Debruçou-se longamente, em dezenas de apresentações publicadas no JSCML, durante cerca de dez anos, sobre a diabetes revelando grande erudição nos trabalhos sobre essa doença em diferentes países europeus e no nosso. Apresentadas em 1860, e elementarmente discutidas da etiologia e epidemiologia e ampliado em 1863, publicou em 1870 um terceiro estudo de diagnóstico e prognóstico nas Memórias da Real Academia das Ciências de Lisboa. Os seus trabalhos sobre a diabetes foram citados por nacionais e estrangeiros (Grande Dicionário das Ciências Médicas,Paris; Livro de Patologia Interna de Jacoud);

«Finou-se em 17 anos de actividade científica este professor que mantinha íntima familiaridade com os alunos, nos quais deixa sentida mágoa», como o aluno do 2.º ano Miguel Bombarda oportunamente salientou.

Matta Pacheco [1863/1865]

João Pires Matta Pacheco


O Dr. Matta Pacheco foi o décimo quinto Presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, exercendo mandato de 1863 a 1865. Reeleito nessa data, renunciou às funções em Fevereiro desse ano por razões ligadas à carreira militar que o impedia de dar uma atenção mais próxima à coordenação dos trabalhos da Sociedade.


Entrando ao serviço do exército em 1835, foi de imediato destacado para missão no estrangeiro e, aproveitando a demora do regimento em que estava incorporado em Salamanca, adquiriu naquela Universidade o título de bacharel em Medicina. No regresso, após os exames médicos e militares exigidos, foi nomeado cirurgião-mor e subiu todos os degraus da hierarquia médica militar que se concluiu com a nomeação para chefe do serviço sanitário do campo de instrução e manobras em Tancos.


Foi proprietário e lavrador no Alentejo durante alguns anos e dedicou-se a algumas questões de saúde pública relacionadas com essa sua actividade, como se encontra registado no seu trabalho «Memória topográfica de Vendas Novas».


Matta Pacheco, que nunca integrou as carreiras hospitalar civil ou académica por se ter dedicado em exclusivo às suas funções médicas militares onde alcançou inegável prestígio, teve reconhecimento público nas comendas, distinções e louvores que lhe foram atribuídos.

A presidência na Sociedade das Ciências Médicas deve-se ao prestígio pessoal que lhe era conferido pela sua posição na medicina militar.

Cunha Viana [1866/1870]

Francisco José da Cunha Viana

Cunha Viana, o 16.º Presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, veio de Coimbra com muito prestígio e atingiu a cátedra, na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, após brilhantes concursos.


Foi um dos médicos mais ilustres do seu tempo, com intensa actividade clínica, que lhe limitou a expressão de outros talentos.


A sua bibliografia é escassa, constituída por escritos isolados sobre o ensino médico, a higiene hospitalar e a lotação das enfermarias do Hospital de São José, elaborados em colaboração com Abel Jordão e Teotónio da Silva.


Os seus mandatos na Sociedade corresponderam a uma fase de recuperação financeira, a que se refere no discurso de despedida, em 1870, em que agradece o apoio, entre outros, de Silva Amado e Sousa Martins que, anos mais tarde, também vieram a presidir à Sociedade.


A periodicidade das sessões e a participação dos sócios foi recuperada, o que em grande parte se ficou a dever à escolha oportuna dos temas para discussão e em que sobressaía a eloquência de Sousa Martins.


Cunha Viana deu colaboração a diversas instituições públicas e de benemerência e também foi médico da Corte.


No dizer dos seus biógrafos, Cunha Viana foi um professor esclarecido, um clínico experimentado e um homem profundamente honesto e de exemplar modéstia.

António Maria Barbosa [1870/1872]

António Maria Barbosa

António Maria Barbosa deu uma grande contribuição para as actividades da Sociedade das Ciências Médicas, em momento difícil da sua história. Desempenhou funções diversas por quase duas décadas e foi eleito Presidente (17.º), com mandato de 1870-72.

Teve uma brilhante carreira hospitalar e académica após cursar a Escola de Lisboa, sempre com elevadas classificações, obtendo «carta de médico-cirúrgião» em 1850. Operador muito hábil, cedo adquiriu fama pelas suas intervenções cirúrgicas e pela introdução de muitas técnicas, que representaram progressos científicos de muita valia para a época.


Quando estudante fez experimentar em si próprio a «eterização» como processo anestésico, vindo a publicar os resultados das «impressões sentidas» numa revista farmacêutica e, com isso, influenciando cirurgiões como Teotónio da Silva e outros. A sua carreira de cirurgião foi brilhante, atingindo o lugar de Director de enfermaria, sete anos após a licenciatura, por falecimento de Alves Branco, e o lugar de Lente proprietário na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa dois anos mais tarde.

A sua intervenção na doença da Rainha D. Estefânia acentuou a relevância pública que lhe era atribuída como clínico e levou à sua nomeação como médico do Paço. O prestígio de António Maria Barbosa cruzou fronteiras, recebendo convites para integrar, por distinção, numerosas sociedades científicas europeias, e também galardões e comendas de grande prestígio.


Professor considerado, hábil cirurgião, autor de obra vasta e valiosa, António Maria Barbosa foi, tal como lembrou Manuel Bento de Sousa, «um confrade que muito honrou a arte e a pátria».

Bento de Sousa [1875/1876]

Manuel Bento de Sousa

Manuel Bento de Sousa foi um famoso clínico, cirurgião, anatomista, primoroso escritor com elevada faceta de polemista e, por fim, agricultor.

O órfão de dois anos, recolhido pelos Condes de Murça que lhe proporcionaram esmerada educação, nunca esqueceu, ao longo da vida, a carência afectiva inicial. Sentia o meio mesquinho e não estimulante, o que o teria levado a escrever A Parvónia.

Arrastou um gradual desânimo que adicionado a razões de saúde poderão justificar a longa vivência final em Azeitão durante dezassete anos. Com efeito, o uso de ácido fénico então corrente no penso de Lister desencadeava e agravava a sua enxaqueca crónica.

Afastou-se então dos actos cirúrgicos tendo trocado a sua cadeira de Cirurgia pela de Anatomia em 1881, que só regeu durante um ano.

Mas o polemista retirado em Azeitão ainda dedicou dezenas de páginas à «Epidemia extravagante» de 1894, contestando vivamente, como colerista, as conclusões de Câmara Pestana sobre o agente responsável pela epidemia.

Este ilustre cirurgião atingiu o maior prestígio e autoridade clínicas do seu tempo. Todavia os poucos trabalhos científicos que o consagram até hoje são de Anatomia (sem dissecção), com cariz anátomo-fisiológico.

Uma pura elaboração intelectual, sem confirmação prática, conduziu-o à descoberta da função gustativa do nervo intermédio de Wrisbreg.

Com o clínico afamado coexistiu o literato d’A Parvónia, quadro caricatural dos costumes da Capital, e d’O Doutor Minerva, crítica humorística ao ensino da História de Portugal.

Gaspar Gomes [1877/1879]

Joaquim Eleutério Gaspar Gomes

O 19.º Presidente da Sociedade, Gaspar Gomes, foi licenciado pela Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, doutorado pela Universidade de Bruxelas e fez toda a carreira profissional nos Hospitais de Lisboa.


Foi Lente Jubilado de Zootecnia e de Matéria Médica no Instituto de Agricultura e Veterinária de Lisboa.


Dirigiu a enfermaria de crianças do Hospital de Dona Estefânia desde a sua fundação.

Foi agraciado com várias comendas nacionais e estrangeiras e nomeado conselheiro de Estado e Médico da Real Câmara, o que lhe deu considerável notoriedade pública.

Eduardo Mota [1879/1881]

Eduardo Augusto Mota


O Professor Eduardo Mota, vigésimo presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa foi um ilustre clínico, professor universitário, cirurgião de banco, e grande divulgador da ciência da época, nacional e estrangeira. Nesta última, em particular, salientam-se as suas notáveis colaborações no Jornal da Sociedade com o título de Revista Científica entre 1868 e 1870.

Contemporâneo na Escola Médico-Cirurgica de Lisboa dos Professores Serrano, Sousa Martins e Bombarda, a todos levava a palma, no dizer de Bello Moraes, nos laços afectivos com os alunos e na disponibilidade para com os mesmos na sequência de magistrais lições de clareza e elegância. Serrano e Bombarda mantinham um afastamento, e Sousa Martins, ainda no dizer de Bello Moraes, mal acabada a aula «lépido partia no mourejo da sua clínica».


Em 1870 fez a primeira laqueação da carótida primitiva e a primeira administração hipodérmica de sublimado no tratamento da sífilis.


Não foi um investigador, mas devotou-se ao ensino empenhadamente, publicando valiosas e volumosas obras com largas centenas de páginas que esgotavam os conhecimentos da época em histologia, farmacologia e terapêutica. A obra de Farmacologia e Terapêutica, datada de 1817, teve três edições, sendo a última de 1901. O «Bosquejo histórico da Escola de Medicina de Lisboa» é um documento valioso sobre a evolução do ensino liceal e médico até 1877, apresentado traduzido na Exposição Mundial de Paris.

Alves Branco [1881/1883]

José Maria Alves Branco


O Dr. José Maria Alves Branco foi o 21.º Presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, em cuja Escola Médica se licenciou em 1842. Realizou toda a cirurgia geral do seu tempo, adquirindo prestígio e consideração dos seus pares e da sociedade da época. Dedicou-se especialmente à Ginecologia, tendo efectuado em 1884 as primeiras ovariectomias em Portugal, sendo-lhe igualmente atribuídas contribuições pioneiras no tratamento cirúrgico das fístulas vesicovaginais e da litotrícia da mulher.


Homem de acção, privilegiou o trabalho no hospital, que considerava ser a verdadeira escola de formação dos médicos. Também se empenhou na luta contra a mortalidade operatória, seguindo e divulgando as ideias que Semmelweiss ao tempo semeara. Fez repetidas críticas sobre a falta de limpeza e arejamento das enfermarias, censuras que originaram uma portaria assinada pelo ministro do Reino. A repreensão não afrouxou o seu zelo na defesa dos princípios da verdadeira higiene hospitalar.


A faceta de higienista levou-o a intervir no combate à epidemia de cólera que em 1859 assolou a Ilha da Madeira.


O Dr. José Maria Alves Branco teve ainda uma meritória actividade de ensino como Professor de Anatomia na Escola de Belas-Artes e teve relevante intervenção no jornalismo médico, sendo fundador do Correio Médico e colaborador assíduo na Revista Médica Portuguesa, Gazeta Médica do Porto e Archivo Universal.

Silva Amado [1883/1885]

José Joaquim da Silva Amado


Órfão de pai aos três anos, a infância de Silva Amado foi dificultada por carências económicas que um subsídio do Rei D. Pedro V suavizou, ao permitir-lhe a frequência dos estudos superiores. Na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa foi um estudante laureado, concluindo a licenciatura com elevadas classificações.


Nomeado Professor substituto da Secção Cirúrgica da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, atingiu o posto de Lente da Anatomia Patológica e Partos em menos de dois anos. Transferiu-se então para Lisboa onde a sua intensa actividade e reconhecido prestígio levaram a que, pouco tempo depois, fosse nomeado Lente de Medicina Legal e Higiene, cadeiras que vieram a ser separadas em 1900. Silva Amado fez a opção pela Medicina Legal, dedicando-se à tarefa pesadíssima de dar execução à Lei de 1899, que criou os Serviços Médico-Legais.


Pela tenacidade e obra realizada no campo da Medicina Legal, Silva Amado é considerado o reformador desta cátedra na Escola de Lisboa, a qual se projectou no país e estrangeiro, em especial quando encontrou, em 1904 um colaborador precioso, o Professor Azevedo Neves, que lhe veio a suceder.


Silva Amado tem obra valiosa publicada nos campos da higiene pública e ciências forenses onde é uma figura de referência na História da Medicina Portuguesa.

José António Serrano [1895/1896]

José António Serrano

José António Serrano tem sido unanimemente considerado um excepcional anatomista e um escritor vernáculo da língua pátria: numa síntese, um exímio escritor da Ciência. O seu Tratado de Osteologia é considerado uma monumental obra de rigor na observação, na descrição e no prodígio do estilo literário.


Serrano foi cirurgião distinto, com longa prática e pioneiro entre nós da histerectomia abdominal por mioma uterino, aplicando, precocemente, para benefício da sua arte, as doutrinas de Pasteur e a prática de Lister. Foi ainda o pioneiro do tratamento do mixedema com recurso a enxerto hipodérmico heterólogo (carneiro).

Bibliófilo médico e literato, espelho de modéstia, foi um homem austero mas muito admirado e amado pelos estudantes.


Foi um muito ilustre Vice-Presidente da Sociedade, nunca aceitando ser Presidente, apesar de muito instado, e não obstante haver sido um excepcional 2.º e 1.º Secretário. Poder-se-ia especular se essa recusa não corresponderia a uma certa retracção a abrir-se ao social, como o caracterizava Miguel Bombarda, querendo manter-se sempre num apertado círculo de ciência e de estudos anatómicos.


Falecido prematuramente, com 53 anos, no auge das suas faculdades intelectuais, adivinha-se quão vasto património científico e cultural terá ficado por criar.

Sousa Martins [1897]

José Thomaz de Sousa Martins


Foi na Escola Médico-Cirurgica de Lisboa que Sousa Martins se licenciou e desempenhou as funções de professor de Patologia Geral e de História da Medicina.

Mais de cem anos depois da sua morte (1897) a recordação do prestígio do clínico e do professor mantém-se intacta. O culto que lhe é tributado, junto do monumento erguido no Campo Santana em sua homenagem, congrega numerosos devotos.


No dizer do Professor José António Serrano «a cátedra fê-lo grande, as foi a clínica que o consagrou». O volume In Memoriam que lhe foi dedicado encerra numerosos testemunhos que enalteceram a sua vida e obra, e a imensa afabilidade para com os discípulos e os doentes.

Sousa Martins foi Presidente da Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa em 1897. A Sociedade constituiu ao longo de anos o grande palco onde o talento e a eloquência de Sousa Martins se patentearam perante um auditório ávido de o escutar e ver.


A eloquência tribunícia de Sousa Martins – «o espectáculo verbal da sua palavra e as entoações discursivas eram semelhantes a uma cachoeira, que só pode imaginá-la quem a presenciou» – no dizer de Bettencourt Raposo, seu amigo, colega e admirador.

Curry Cabral [1898/1900]

José Curry Câmara Cabral


A hospitalização em Lisboa foi sempre difícil com várias fases de agravamento que o Hospital de São José, apesar dos sucessivos Anexos não conseguia debelar. Foi nestas tarefas quase ciclópicas que a personalidade do Professor Curry Cabral se evidenciou como um notável administrador hospitalar. O período de 1901-09, que corresponde ao mandato de Enfermeiro-mor, é uma fase de grande brilhantismo na vida hospitalar lisboeta. Já antes Curry Cabral era conhecido como dedicado colaborador da Rainha D. Amélia na luta contra a tuberculose e um reputado cirurgião e professor distinto de Medicina Operatória na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa.


Curry Cabral organizou os serviços de higiene hospitalar com fornos de incineração, procedeu à fiscalização rigorosa dos géneros alimentícios, criou o Laboratório de Análises Clínicas no Hospital de São José, organizou a estatística hospitalar e correlativo boletim, e criou a Escola de Enfermagem. Devem-se-lhe ainda a construção dos novos edifícios do Hospital de Santa Marta, destinado a doenças venéreas e sífilis, e do Hospital do Rego onde se instalaram as doenças infectocontagiosas febris, aumentando a capacidade dos Hospitais Civis para mais de 1200 doentes. Ao Hospital do Rego foi, mais tarde, atribuído o nome de Curry Cabral como seu patrono.


Teve atritos com a Escola Médica pela decisão de suspender o internato nos hospitais e de cercear a livre movimentação dos alunos nas enfermarias. A austeridade da sua vida e a probidade do carácter granjearam-lhe grande número de admiradores mas também tenazes inimigos que rejubilaram com a demissão compulsiva que lhe foi imposta após a revolução de 1910.

Miguel Bombarda [1900/1903]

Miguel Augusto Bombarda

Miguel Bombarda, fascinante e multifacetada figura da Medicina Portuguesa, tem vasta e diversa representação na escultura, pintura, literatura de ensaio e toponímia de diversas localidades, o que consagra a dimensão nacional do seu nome e o integra na galeria das glórias do País.

Cirurgião do banco dois anos após cursar Medicina, cedo direccionou os seus interesses para «os padecimentos dos alienados» no Hospital de Rilhafoles, aí centrando a maior parte da sua actividade assistencial e científica.


Miguel Bombarda teve uma intensa participação política. Considerado um dos caudilhos do Partido Republicano com maior prestígio e representação popular, antecipavam-se no seu futuro elevadas responsabilidades públicas, não fora o atentado mortal que o vitimou.

Deputado às Cortes, era uma das vozes mais respeitadas do Parlamento, onde defendeu a reforma do ensino médico, a criação da Escola Médica de Goa e da Escola de Medicina Tropical. A ele se devem iniciativas relevantes para a Medicina Portuguesa, como o XV Congresso Internacional de Medicina, cuja cerimónia de abertura foi feita coincidir com a inauguração do edifício da Faculdade de Medicina de Lisboa.


A obra escrita de Miguel Bombarda é, porventura, das mais fecundas da Medicina Portuguesa e com mais diversificadas preocupações: das doenças mentais, que ocuparam grande parte da sua vida científica, às questões da organização dos serviços de saúde, da deontologia do exercício profissional, da associação sindical dos médicos, da prática médico--legal e da estrutura dos serviços forenses. Se se adicionarem os textos doutrinários, os de intervenção social, os muitos ensaios sobre crítica literária e as biografias, as muitas centenas de textos de Miguel Bombarda constituem o legado «renascentista» de um livre-pensador, tribuno brilhante, académico e cientista de invulgar envergadura.

Gregório Fernandes [1903/1905]

Gregório Rodrigues Fernandes

O Dr. Gregório Fernandes, 27.º Presidente da Sociedade foi cirurgião de grande reputação do Hospital de São José.

Num período incipiente em que as operações eram indicadas com parcimónia e executadas
com grande receio, porque não havia anestesia e era constante o perigo de infecção, o Dr. Gregório Fernandes gozava de dilatada consideração no meio médico lisboeta.

Atribui-se-lhe a primeira ressecção do joelho em Portugal e vários artigos científicos da sua autoria revelam uma preparação médico-cirúrgica invulgar.


A descrição da morte de Sousa Martins, ocorrida quando o Dr. Gregório Fernandes fazia a assistência nocturna ao doente, levantou-lhe uma delicada dúvida de diagnóstico sobre a sua etiologia e que não conseguiu esclarecer.


É digno de registo que o Dr. Gregório Fernandes tenha sido pai de dois brilhantes médicos que muito prestigiaram os Hospitais Civis de Lisboa, um dos quais Alberto MacBride, foi o quadragésimo nono Presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa. O outro filho, Eugénio Mac Bride fez carreira de Medicina nos Hospitais de Lisboa e sofreu também marcada influência educativa através do convívio familiar de seu pai com Sousa Martins.

Alfredo da Costa [1905/1907]

Manuel Vicente Alfredo da Costa


A Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, que representou a continuidade entre a Régia Escola de Cirurgia e a Faculdade de Medicina, funcionou em condições muito precárias num edifício em ruína iminente.


Todavia, ao longo da sua existência de 80 anos, conseguiu reunir um escol de professores de elevado nível. De entre os que se encontram consagrados por Columbano nos painéis expostos na Sala do Conselho Científico da Faculdade de Medicina de Lisboa, inclui-se o Professor Alfredo da Costa.


Cirurgião hábil, director de enfermaria do Hospital de São José, é-lhe atribuída a primeira colecistectomia realizada em Portugal. Nessa enfermaria de Santa Maria Ana tinha instalado provisoriamente uma maternidade, iniciando uma orientação para esta área da medicina, a qual lhe veio a conferir o maior reconhecimento público. Cedo chegou a Lente proprietário da cátedra de Partos, ocupando a vaga deixada por Abílio Mascarenhas, tendo tido ainda a responsabilidade transitória da regência da cadeira de Anatomia Patológica.

Alfredo da Costa desenvolveu as medidas de protecção às grávidas e aos prematuros e desenhou medidas profilácticas em relação à patologia das puérperas, acção perseverante que o coloca em lugar de destaque na medicina social da época. A morte precoce impediu-o de concluir um ambicioso projecto de dotar Lisboa de uma maternidade moderna e exemplar, cujo planeamento organizou com minúcia. Inaugurada anos mais tarde, em 1932, foi-lhe com justiça atribuído o nome de Maternidade Dr. Alfredo da Costa.


O Professor Alfredo da Costa distinguiu-se também pela notável colaboração médico-social que deu à Rainha D. Amélia na luta contra a tuberculose, e por ter sido um distinto cultor do jornalismo médico.

Oliveira Feijão [1907/1909]

Francisco Augusto de Oliveira Feijão

Francisco Augusto de Oliveira Feijão – O Mestre Feijão – foi, de acordo com os seus comentadores, uma figura esbelta e de palavra insinuante, com largo prestígio social como clínico, excelente cirurgião, parteiro sabedor e prudente. Foi um clínico de grande sucesso, médico assistente de família, «mas de toda a família e pessoal auxiliar».


Foi considerado entre os maiores profissionais da sua época porque sabia acompanhar o progresso da Medicina. Assim, depois de praticada a antissepsia com os pensos de Guérin e de Lister juntou-lhe a assepsia, conhecedor dos trabalhos e conselhos de Pasteur. Fez as primeiras ovariotomias por tumor do ovário, e tiroidectomia.


A diversidade dos temas apresentados e discutidos na Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa mostra a versatilidade e profundidade dos seus conhecimentos, sendo ainda digno de registo, face à ciência da época, as suas preocupações médico-sociais com as doenças profissionais e os acidentes de trabalho, a juntar às do clínico e do higienista, como brilhantemente desenvolveu na primeira conferência inaugural na SCML em 1907.


Homem de grande cultura literária traduzia fluentemente o latim, e recitava longas estrofes dos poetas latinos.


Médico da Casa Real e grande amigo do Rei, após o regicídio de 1908 abandona a clínica e a destacada vida social, mantendo apenas a sua actividade docente.

Custódio Cabeça [1909/1911]

Custódio Maria de Almeida Cabeça


Afirmando-se pela segurança no diagnóstico e pela destreza e perfeição técnica, Custódio Cabeça foi um dos mais exímios cirurgiões do seu tempo.

Por exigência de leccionação regeu Anatomia Patológica, Patologia Cirúrgica e Clínica Cirúrgica, mantendo-se ligado ao ensino desta cadeira até à jubilação.


Fez parte da primeira comissão para o estudo do cancro em 1906, ainda como professor de Anatomia Patológica, mas foi na regência da Clínica Cirúrgica que se consagrou como grande mestre. Visitou os principais centros cirúrgicos do mundo da sua época, o que lhe deu prestígio e conhecimentos científicos que muito aproveitou na vida profissional.


Em 1941 é dado o nome de Custódio Cabeça ao Hospital de Vendas Novas, localidade do seu nascimento.


O perfil científico deste mestre era completado pela sua vasta cultura e por interesses sociais expressos na intervenção cívica que desenvolveu ao longo da vida.

Bello de Moraes [1911/1913]

Carlos Bello de Moraes


O Professor Carlos Bello Moraes, 31.º Presidente da Sociedade, natural do Crato, estudou na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa graças ao auxílio do benemérito Barão de Gafete. Em reconhecimento e como forma de retribuição, decidiu exercer a clínica rural naquela povoação durante cerca de cinco anos.


Aí o foi buscar Sousa Martins, de quem foi discípulo dedicado, fervoroso admirador e colaborador. Após concurso no Hospital de São José, abraçou a vida académica na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, até atingir o topo da carreira como professor de clínica médica.

Bello de Moraes remodelou profundamente o ensino sobretudo depois de uma viagem de estudo que efectuou a França e Alemanha. No ensino clínico passou a dedicar um interesse particular à semiologia médica, matéria que cultivou com grande virtuosismo e para a qual atraiu numerosos discípulos.


Foi o primeiro Director da Faculdade de Medicina de Lisboa, Enfermeiro-Mor dos Hospitais Civis de Lisboa e director da revista Medicina Contemporânea, em que sucedeu a Miguel Bombarda.


O desenvolvimento dos meios laboratoriais e de anatomia patológica conduziram ao prestígio crescente da ciência alemã, criando-se na Faculdade de Medicina de Lisboa um antagonismo entre duas escolas: a escola francesa, representada por Bello de Moraes, em aparente decadência, e a escola alemã, em crescendo de prestígio, que tinha por expoente Pulido Valente.


Bello de Moraes jubilou-se precocemente, deixando nos seus contemporâneos a imagem de um grande clínico e de um homem de trabalho e bondade.

Ricardo Jorge [1913/1915]

Ricardo Almeida Jorge

Ricardo Jorge foi o 32.º Presidente da Sociedade das Ciências Médicas. Formado pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto em 1879, aí criou as ciências experimentais e fundou a moderna estatística demográfica.


Mais tarde, em apelo às suas preocupações de higienista, planeou e concretizou a organização dos Serviços Municipais de Saúde e Higiene do Porto. As ameaças movidas pela população da cidade, em consequência da implantação do rigoroso cordão sanitário durante o surto de peste de 1899, levaram-no a solicitar transferência para a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Por cedência de prioridade de Bello de Moraes foi contratado como catedrático, regendo uma cadeira nova, a Higiene, que foi tornada independente da Medicina Legal. No desempenho das funções de Inspector-Geral da Saúde, organizou os serviços de saúde pública e representou Portugal em várias instituições internacionais, tendo recebido a honrosa distinção de Honorary Fellow da Royal Society of Medicine.

Culto, bibliófilo reconhecido, possuía inegáveis predicados estilísticos.

Deixou-nos um legado literário importante, que contempla variados géneros (ensaios, biografias, notas de viagem), reveladores de uma multifacetada personalidade. O Instituto para Alta Cultura editou parte da sua obra em 1926.


Considerado grande sanitarista da Medicina Portuguesa, a ele se deve a organização da saúde pública do país, mérito que lhe valeu reputação internacional.

A atribuição do seu nome à instituição portuguesa emblemática dos serviços de saúde pública é um justo tributo a um dos nomes mais proeminentes da medicina portuguesa dos primórdios do século xx.

Ayres Kopke [1915/1918]

Ayres Kopke Correia Pinto

Ayres Kopke foi o nosso pioneiro da Medicina Tropical. Seria precocemente professor da Escola de Medicina Tropical de Lisboa (1902) e seu Director mais tarde (1928).

Médico e oficial de marinha cedo se exercitou na técnica laboratorial junto de Câmara Pestana.

Foi responsável pelas áreas clínica e terapêutica na Missão Médica portuguesa para o estudo da doença do sono, efectuada a Angola em 1901, sob a direcção de Aníbal de Bettencourt. Muitos anos mais tarde, em 1927, chefiaria missão análoga a Moçambique.

Empregando o atoxil foi o precursor do tratamento com êxito daquela doença. As suas múltiplas deslocações ao estrangeiro preencheram um longo apostolado da apresentação dos bons resultados clínicos que incluíam por fim a administração subaracnóideia nas formas graves.


Deste modo representou a Escola de Medicina Tropical de Lisboa em congressos e reuniões internacionais em numerosas capitais do Mundo.


A apresentação original deste tratamento foi feita na Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa em 1906, tendo sido publicada em 1916 uma memória premiada e editada pela Sociedade de Geografia de Lisboa.

Zeferino Falcão [1918/1919]

Zeferino Candido Falcão de Pacheco

No final do século xix, Zeferino Falcão dá início em Lisboa à Dermatologia Clínica.

Licenciado em Coimbra, frequenta estágios em Paris e Viena e, regressado a Portugal, consegue instalar no Hospital de São José, em 1892, a primeira consulta de «Moléstias da pele». Organiza vários cursos práticos e é nomeado professor livre de Dermatologia, o que lhe deu a possibilidade de instalar no Hospital de Santa Marta uma consulta de Dermatologia, que funcionou até ao seu falecimento em 1924.

Foi sócio titular da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa desde 1886 e, durante um período longo, nela desenvolveu uma assídua actividade.

No ano académico de 1918, é eleito Presidente e o seu discurso inaugural versou sobre «o incremento na propagação da sarna». Tomou parte muito activa nas sessões científicas, interessando-se em especial pela reforma do ensino médico que era o assunto que absorvia nessa época a actividade da Sociedade.

Zeferino Falcão deixou uma obra científica relativamente vasta, principalmente divulgadora dos problemas suscitados pela lepra e pela pelagra. Descreveu ser a rinite um sintoma semiológico importante no diagnóstico precoce da lepra, facto só aproveitado vários anos depois com utilidade diagnóstica.

Azevedo Neves [1919/1921]

João Alberto Pereira de Azevedo Neves


O Professor Azevedo Neves presidente da Sociedade em 1919--21 faz parte do grupo de prestigiados professores que ficaram conhecidos na História da Medicina Portuguesa como «a geração médica de 1911», por terem sido nomeados catedráticos da Faculdade de Medicina de Lisboa nessa data, realizando provas para as respectivas especialidades, então criadas.


Azevedo Neves, oriundo de Angra do Heroísmo onde já se distinguira ao dirigir um jornal de estudantes, fez uma licenciatura brilhante na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa.

Especializou-se em Berlim (1901) com Virchow e Von Hansermann e regressou a Lisboa a convite do Professor Curry Cabral para fundar o Laboratório de Análise Clínica do Hospital de São José (1902).


Inicialmente vocacionado para se dedicar à Anatomia Patológica, a oportunidade de ingressar na Escola Médica, fê-lo optar pela Medicina Legal, cadeira vaga pela jubilação de Silva Amado.


Em 1911 é catedrático de Medicina Legal e Director da Morgue.

Numa actividade de mais de 30 anos consegue colocar a Medicina Legal em Lisboa numa situação de grande prestígio nacional e internacional, e erigir o Instituto de Medicina Legal de Lisboa.


A sua actividade exercida com muitas outras facetas de professor, escritor, ensaísta, conferencista e político, traduziu-se numa obra escrita valiosa, que engloba 112 títulos.

É considerado pioneiro da Medicina Legal, da luta contra o cancro em Portugal, da fisioterapia e do ensino técnico-profissional.

Nicolau Bettencourt [1921/1922]

Nicolau Anastácio Bettencourt

Nicolau de Bettencourt (o terceiro director do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana e terceiro professor de Bacteriologia da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, depois Faculdade de Medicina de Lisboa) teve a enorme responsabilidade de continuar os vultos máximos da bacteriologia nacional – Câmara Pestana e Aníbal Bettencourt. Podemos considerar que a desempenhou honrosamente embora tenha introduzido uma nova orientação, pioneira em Portugal e antecipando-se à sua época, que hoje está consagrada entre nós e em todo o Mundo – a Microbiologia Clínica. Com efeito, associava ao seu cargo de Médico dos Hospitais Civis de Lisboa (Clínica Médica), o seu virtuosismo técnico-laboratorial que aprendeu com Câmara Pestana e com seu irmão. Dedicou-se em particular à Imunologia e Serologia cujas respostas se impunham face às realidades clínicas com que convivia (febre tifóide, tifo exantemático, quisto hidático, meningite meningocócica, difteria, sífilis, brucelose).


Trabalhou em laboratórios de referência internacionais (Londres, Copenhaga) e desempenhou missões honrosas, representando Portugal em numerosos países e na Sociedade das Nações.

Pela relativa proximidade de idade com seu irmão, só atingiu a cátedra com 58 anos, falecendo 11 anos mais tarde, com 69 anos. O seu importante depoimento Balanço Necessário, publicado dois anos após assumir a direcção do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, não deve ser visto com pessimismo, mas antes como uma acutilante e amargurada crítica à organização das instituições científicas públicas, que evidenciavam falta de estímulo para a investigação científica no ambiente português.

Costa Sacadura [1923/1928]

Sebastião Cabral da Costa Sacadura

O Professor Costa Sacadura ocupou a presidência da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa durante dois mandatos. A sua direcção conseguiu vencer a grave crise financeira que paralisava esta agremiação e que foi responsável pela suspensão do Jornal durante oito anos.

Para enaltecer tão profícuo labor os sócios nomearam-no Secretário-Geral perpétuo. Costa Sacadura deu ainda grande brilho científico à Sociedade mercê de várias iniciativas inovadoras, nomeadamente a criação de diversas especialidades como sociedades filhas ou secções.

Quer no ensino, quer na clínica, foi um médico exemplar, dedicando a sua vida e obra à Obstetrícia e Ginecologia cuja cátedra regeu, fazendo parte de um escol notável de médicos parteiros que incluiu Alfredo da Costa e Augusto Monjardino.


De escrita fácil, Costa Sacadura deixou vasta obra publicada, desenvolvendo essa capacidade nas áreas da obstetrícia, ginecologia, História da Medicina, jornalismo médico e pedagogia.

Silva Carvalho [1928/1930]

Augusto da Silva Carvalho


O Dr. Augusto da Silva Carvalho, que não fez carreira académica nem hospitalar, foi um dos mais fecundos e rigorosos historiadores da Medicina Portuguesa, assimilando o pioneirismo de Maximiano de Lemos.

Nascido em Tavira, fez um curso brilhante na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e, durante a sua longa existência de nonagenário, realizou uma vasta obra como escritor médico na qual se destacam, entre outras, a História do Hospital de Todos-os-Santos, da Régia Escola de Cirurgia, da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, A Medicina nos séculos XVI, XVII e XVIII.

Em 1901 deixa a clínica particular e dedica-se à medicina das crianças pobres, no dispensário que dirigiu até 1910.


A sua actividade literária foi muito prolífica com mais de 400 títulos, dos quais 84 ligados à História da Medicina. Apresentou alguns desses trabalhos nos Congressos Internacionais de Medicina de Lisboa (1906) e Madrid (1935).


Silva Carvalho foi Cirurgião Honorário dos Hospitais Civis. Foi ideia sua a celebração do dia dos Hospitais Civis de Lisboa em 15 de Maio, em memória da colocação da primeira pedra do Hospital de Todos-os-Santos, por D. João II.

Falecido aos 94 anos, o Dr. Silva Carvalho deixou uma vasta obra de investigação histórica, que constitui um legado muito importante para o conhecimento da evolução da medicina em Portugal.


O seu vasto espólio literário encontra-se repartido pela Universidade de Coimbra, Biblioteca Nacional de Lisboa e Câmara Municipal de Tavira.

Reynaldo dos Santos [1930/1932]

Reynaldo dos Santos

O Professor Reynaldo dos Santos exerceu o mandato de Presidente da Sociedade no apogeu da sua carreira profissional e académica, que se iniciou com estágios prolongados em França, Estados Unidos e Alemanha. Deles colheu, nos primórdios do século xx, uma visão moderna da Medicina que influenciou a sua prática e lhe proporcionou contactos fecundos com figuras de referência, cuja amizade cultivou ao longo da sua brilhante carreira de cirurgião. Cedo atingiu lugar de chefia nos Hospitais Civis de Lisboa e a cátedra na Faculdade de Medicina de Lisboa, tendo tido uma intervenção pioneira na individualização da Urologia. Partilhou do entusiasmo do seu tempo pelos estudos angiográficos e desenvolveu obra de relevo na arteriografia dos membros.

A sua obra científica é vasta e de especial brilho na patologia vascular.

Por ela recebeu títulos e honrarias fora do País, o que eleva a sua personalidade e obra à condição de excepção.

Se Reynaldo dos Santos concentrava reconhecidos talentos na arte cirúrgica, a sua cultura artística veio a assumir proeminência incomum em vários domínios, da pintura à azulejaria, com obras de referência na historiografia portuguesa, e a direcção da Academia Nacional de Belas-Artes por cerca de três décadas.


A obra de Reynaldo dos Santos inclui 400 estudos relacionados com a história e a crítica de arte que, adicionados a 235 trabalhos de medicina, «é o produto da universalidade do seu pensamento e a projecção dos seus trabalhos difunde-se largamente além-fronteiras», como o evocou Jaime Celestino da Costa.


A sua personalidade renascentista, iluminada cultura humanística e invulgar relevância social e académica nos domínios médico e artístico são a razão para ser lembrado, com admiração e reverência, como Mestre Reynaldo.

Salazar de Sousa [1932/1934]

Jaime Ernesto Salazar D’Eça e Sousa


O Professor Jaime Salazar de Sousa, 40.º Presidente da Sociedade das Ciências Médicas, licenciou-se em Lisboa em 1893 e cedo rumou aos Estados Unidos onde, após prolongado estágio, obteve o diploma de especialista em Pediatria e Ortopedia pela Universidade de Boston, em 1897. Tal qualificação, invulgar para o nosso meio, viria a ter importantes consequências na sua vida profissional e na vida hospitalar de Lisboa.

Fundou em 1903 consultas de Pediatria no Hospital de São José e, mais tarde, no de Dona Estefânia, vindo a ascender a professor catedrático de Pediatria Cirúrgica e Ortopedia da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1910. Deve-se-lhe a criação da Escola de Pediatria de Lisboa, por si fundada e acompanhada durante três décadas no Hospital de Dona Estefânia, de que foi director até 1940, e que alcançou justa reputação nacional. Salazar de Sousa foi um exímio operador, um pediatra de grande projecção e um investigador clínico de apurada intuição. Escritor e pedagogo, teve acentuado interesse pela cirurgia infantil que dominava com mestria. Deixou trabalhos relevantes, alguns dos quais pioneiros, sobre anestesia, kala-azar infantil, hiperesplenismo e esplenectomia, numa vasta obra científica com cerca de 90 títulos.

Para o Professor A. Celestino da Costa, «a escola de Pediatria fundada pelo Prof. Jaime Salazar de Sousa representa um dos mais autênticos serviços feitos a este País em matéria de Medicina»

Borges de Sousa [1934/1936]

Alberto Branco Borges de Sousa

Alberto Borges de Sousa, que presidiu à Sociedade em 1934-36, foi um distinto oftalmologista que adquiriu a sua formação científico-profissional durante cerca de três anos em Paris, na Clínica Oftalmológica do Prof. Despagnet onde foi assistente e depois chefe de clínica.

Em Portugal, fez uma longa carreira hospitalar nos Hospitais Civis de Lisboa, primeiro de Medicina e, posteriormente, daquela especialidade, atingindo o cargo de Director de Serviço de Oftalmologia do Hospital dos Capuchos, em 1929.

Não tendo sido um investigador, e com reduzida obra publicada quase só a partir desta data, foi nomeado em 1932 Director do Instituto Oftalmológico Dr. Gama Pinto e convidado para Professor Catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa.

Considerado um grande clínico que modernizou a especialidade, foi introdutor da técnica operatória do descolamento da retina. Ao contrário do que era corrente na sua época, Borges de Sousa dedicava igual atenção aos aspectos preventivos e curativos em Oftalmologia.

Francisco Gentil [1936/1938]

Francisco Soares Branco Gentil


O Professor Francisco Gentil, 42.º Presidente da Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa, assinalou uma notável presença nesta Sociedade, desde 1902 a 1951.


Discípulo de grandes cirurgiões (Oliveira Feijão, Abílio Mascarenhas, José Gentil) foi um
preclaro mestre da cirurgia lisbonense, onde pontificou durante dezenas de anos.

A sua obra mais valiosa é representada pela luta contra o cancro em Portugal. A persistência e vigor desta luta convertem-no em grande pioneiro da nova especialidade – a Oncologia – que nasce das suas mãos.


Foi da iniciativa do Professor Francisco Gentil a realização de um conjunto de conferências sobre temas oncológicos, realizadas na Sociedade das Ciências Médicas em 1907.

Corolário desta actividade em prol da organização da luta contra o cancro, representada pelo Instituto Português de Oncologia, surge a formação científica das enfermeiras que, com o auxílio da Fundação Rockefeller, levou à criação da Escola Técnica de Enfermeiras (ETE).

Foi Enfermeiro-Mor dos Hospitais Civis de Lisboa e fundador do Hospital Policlínico para acolher os feridos da guerra. As construções hospitalares foram outro domínio em que o Professor Francisco Gentil se salientou. A sua autoridade e competência conduziram à construção dos Hospitais Escolares de Lisboa e Porto, a cuja comissão técnica presidiu.

A renovação do ensino médico, com a criação das diferentes especialidades, deu origem a uma notável plêiade de docentes na Faculdade de Medicina de Lisboa, que muito prestigiou a Escola e a Medicina nacional. Ficou conhecida por geração de 1911 e Francisco Gentil, que teve a honra de a integrar, em muito a prestigiou.

Augusto Monjardino [1938/1941]

Augusto de Almeida Monjardino

O Professor Augusto Monjardino, discípulo dedicado de Custódio Cabeça, cedo enveredou pela Ginecologia, especialidade que praticou com grande virtuosismo.

Esta especialidade, que cultivou em ligação com a Obstetrícia, fê-lo aproximar-se do Professor Alfredo da Costa que acalentava o propósito de construir uma grande maternidade em Lisboa. O seu desaparecimento prematuro levou Augusto Monjardino a tomar a seu cargo aquela obsessiva aspiração, de cerca de 30 anos.

Tendo visitado maternidades em Itália, França, Alemanha, Bélgica e Holanda, Augusto Monjardino rodeou-se de bons colaboradores e conseguiu erguer a Maternidade Alfredo da Costa. Converteu-a no primeiro hospital do País dedicado à obstetrícia e ginecologia, pela qualidade da assistência médica e social às grávidas, dos cuidados aos recém-nascidos, e pelo escol de especialistas que se formou à sua volta, concretizando a realização maior de toda a sua vida profissional. A participação generosa do benemérito Rovisco Pais possibilitou concluir as obras de edificação da maternidade e para ela adquirir moderno equipamento, assim se constituindo numa unidade modelar e pioneira entre nós.

Augusto Monjardino desempenhou também o cargo de Reitor da Universidade de Lisboa, cargo a que estava associado um grande prestígio social e que era reservado a personalidades de excepção.

Toscano Rico [1941/1944]

José Toscano de Vasconcelos Rico

O Professor Toscano Rico foi o 44.º Presidente da Sociedade numa fase ainda jovem da sua longa carreira académica e pública, durante a qual desempenhou lugares de grande notoriedade, onde se fez sentir o tom sóbrio que gostava de emprestar às suas intervenções.

No ano seguinte ao da licenciatura (1924), Toscano Rico foi admitido no quadro de docentes da cadeira de Farmacologia, área científica onde fez toda a sua carreira, tendo chegado muito cedo à titularidade da cátedra. A ela ascendeu por falecimento de Sílvio Rebelo, uma das personalidades de relevo da geração médica de 1911, a quem se ficou a dever a importante mudança da designação da cátedra de Matéria Médica para Farmacologia, ciência a que imprimiu uma orientação inovadora e que teve créditos internacionais. Toscano Rico, seu discípulo, após ter efectuado um estágio prestigiado em Berlim, foi nomeado Professor Catedrático pelo Conselho Escolar da Faculdade, no reconhecimento de méritos pessoais e científicos. Foi, sucessivamente, Professor de Terapêutica Geral e de Farmacologia e, mais tarde, de Hidrologia Geral, dirigindo o respectivo Instituto de Investigação até à jubilação, em 1971.


Figura de referência da Farmacologia nacional, as suas qualidades foram razão dos muitos convites que recebeu para desempenhar funções directivas em várias instituições assistenciais (Hospital de Santa Maria, Instituto Português de Oncologia, Laboratório de Medicina Nuclear), de natureza pericial (Conselho Médico-Legal de Lisboa), e na sua própria Escola, que devotadamente serviu como Secretário e Director, funções em que se reflectiram a solidez do seu carácter e a sua personalidade.

Egas Moniz [1944/1946]

António Caetano de Abreu Freire Egaz Moniz

Egas Moniz, que viria a ser o 45.º Presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, formou-se em Medicina em Coimbra com grande brilhantismo e rapidamente ingressou no corpo docente daquela Universidade.

Com o horizonte aberto para ser um futuro lente, cedo a política o tentou e ainda muito novo foi deputado às Cortes, onde sobressaíram os seus dotes de inteligência, eloquência e capacidade de liderança.


A reforma universitária de 1911 criou em Lisboa uma cadeira de Neurologia e Egas Moniz obteve a transferência para a capital como primeiro professor da recém-criada especialidade e director do Serviço de Neurologia do Hospital Escolar de Santa Marta, no qual criou uma secção autónoma de Neurocirurgia, em 1928.

Egas Moniz foi uma personagem multifacetada, de grande envergadura intelectual: professor universitário, investigador, conferencista, crítico de arte, escritor, académico, ministro, diplomata, deputado e homem de Estado.


Foi brilhante em todos os domínios a que se dedicou. A investigação, que praticou com afinco quando já ultrapassara os 50 anos, foi o campo onde mais se distinguiu com duas descobertas – a angiografia cerebral e a leucotomia pré-frontal, esta última com grande repercussão mundial e pela qual recebeu o Prémio Nobel da Medicina em 1949.

Celestino da Costa [1946/1949]

Augusto Pires Celestino da Costa


«Os requisitos dum professor universitário seriam, além da inteligência e qualidades morais, a ilustração, a especialização num ramo do saber, um passado de trabalho científico, o entusiasmo pela investigação e as qualidades didácticas.»

Este pensamento do Professor Celestino da Costa, proferido em 1918, com 34 anos de idade, abarca um vasto programa que ele viria a cumprir exemplarmente até à morte, ocorrida dois anos após a jubilação, em 1954. Com efeito, tratou-se dum docente, catedrático com 27 anos de idade, com qualidades pedagógicas exemplares, dum apóstolo da investigação científica em Portugal e que foi investigador com grande capacidade criadora durante 52 anos em Embriologia, Histologia e Endocrinologia; dum cultor de Biologia Marítima; duma autoridade na organização hospitalar e na organização do Ensino Médico. Enfim, noutras múltiplas facetas da sua personalidade, ainda o cultor da História, da Arte; o melómano e o dedicado historiador da sua cidade.

Na chamada geração de 1911 foi o Professor Augusto Celestino da Costa quem atingiu maior projecção científica nacional e internacional.

Como tem sido referido, ele, Augusto no nome, foi marcadamente Augusto na sua fecunda obra e na sua longa vida, que se extinguiram no mesmo momento.

Henrique Vilhena [1949/1950]

Henrique Jardim de Vilhena

O Professor Henrique Vilhena sucedeu ao Professor José António Serrano no ensino da Anatomia na Faculdade de Medicina de Lisboa e na Escola de Belas-Artes. Deixou uma vasta obra científica nos domínios desta ciência morfológica, cultivando com especial relevância a Miologia. Foi fundador de várias sociedades de Anatomia no estrangeiro, designadamente em Espanha e na América Latina. Fundou os Arquivos de Anatomia e Antropologia, que adquiriram grande prestígio pela qualidade dos seus colaboradores. A sua obra publicada estendeu-se muito para lá da sua actividade científica como morfologista, englobando estudos sobre antropologia e etnografia, ensaios sobre temas de História da Medicina e criações literárias de carácter filosófico e autobiográfico.

Mestre – assim todos os designavam – Henrique de Vilhena foi um académico ilustre pela obra vasta que deixou e pela formação de discípulos, de que se destacaram os nomes de Victor Fontes e Barbosa Sueiro, como figuras do maior relevo da escola de anatomistas que fundou e desenvolveu.

Simões Ferreira [1950/1952]

Luís Carlos Simões Ferreira


O Dr. Luís Carlos Simões Ferreira foi um considerado internista dos Hospitais Civis de Lisboa, onde durante muitos anos dirigiu a Enfermaria de Santa Isabel, no Hospital de São José.


Era no banco de São José, no Boletim Clínico, na Sociedade Médica dos HCL, nas carreiras médicas e no rigor e isenção dos seus concursos que os Hospitais Civis de Lisboa adquiriram a confiança e o respeito com que eram admirados. A personalidade do Dr. Simões Ferreira impôs-se nesse meio hospitalar pelo seu valor, qualidades pessoais e prestígio profissional como clínico.

Simões Ferreira era Vice-Presidente da Sociedade quando o presidente Henrique de Vilhena pediu a suspensão do exercício da presidência.

A sua colaboração na Sociedade foi sempre muito assídua, e a sua prestação teve marcada elevação e equilíbrio, factos que influenciaram as eleições que levaram Simões Ferreira a Presidente da Sociedade.

Durante o mandato de Simões Ferreira foi criada a secção de Gastrenterologia, que veio a dar origem à respectiva Sociedade autónoma, anos mais tarde, Júlio Dantas foi eleito sócio honorário, e foi elaborado o Regulamento dos prémios científicos Sanitas, que foram atribuídos durante muitos anos.

Os seus discursos inaugurais dos anos académicos de 1950 e 1951 despertaram muito interesse na classe médica e contribuíram para reforçar a intervenção da Sociedade das Ciências Médicas nos problemas sociais da época.

Alberto Mac Bride [1952/1953]

Alberto Mac Bride Fernandes

Alberto Mac Bride, 49.º Presidente da Sociedade, foi um dos cirurgiões mais cultos da sua geração, no dizer de Reynaldo dos Santos.

Oito anos após a licenciatura e já com destacada experiência cirúrgica, embarca, em 1917, com o C.E.P. para França, onde prestou valiosos serviços que originaram vários louvores e condecorações.

Director do banco de São José e do Serviço de Cirurgia dos Hospitais Civis de Lisboa, promoveu diversas reformas que muito prestigiaram a Instituição, nomeadamente a reabertura dos internatos médicos.

Participou na Direcção da Liga Portuguesa dos Combatentes da Grande Guerra e na Direcção da Associação dos Médicos Portugueses.

Foi membro da Associação de Arqueólogos, colaborando em particular com a secção de estudos olisiponenses. Foi membro da comissão organizadora do Grupo de Amigos de Lisboa. Foi historiador da Medicina, da instituição Hospitais Civis de Lisboa e da Medicina na Índia Portuguesa.


Na Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa elaborou uma extensa monografia correspondente ao período 1835-46 e que integrou o volume da comemoração centenária da Sociedade em 1923. Foi seu Secretário-Geral Adjunto entre 1949 e 1951, e Presidente durante escassos dois meses, em 1953, ano em que faleceu.

O seu valioso espólio cultural viria a constituir o núcleo principal do Museu Alberto Mac Bride efemeramente aberto no Hospital de Santa Marta.

Xavier Morato [1953/1957]

Manuel João Xavier Morato

O Professor Xavier Morato, que foi o 50.º Presidente da Sociedade de Ciências Médicas, exerceu um mandato influenciado pelos caminhos que o seu próprio percurso cruzou: a emergente importância da biologia na medicina moderna, na explicação dos seus fundamentos e nas promessas de aplicação prática no seu futuro. Foi o primeiro professor dessa nova disciplina – a Biologia Celular – na Faculdade de Medicina de Lisboa.

Xavier Morato foi um internista respeitado pelos seus conhecimentos médicos muito vastos, pelo seu espírito arguto e pelo seu sentido clínico. Todavia, foi como morfologista que a sua intervenção académica e científica e a sua carreira adquiriram justa proeminência. Descendente da escola de microscopia de Lisboa, que teve em May Figueira, Celestino da Costa e Roberto Chaves os seus mais iluminados cultores, Xavier

Morato acrescentou-lhe prestígio como virtuoso na aplicação das impregnações argênticas no estudo da hipófise e no uso da microscopia electrónica, metodologia de que foi um dos primeiros utilizadores em Portugal. As suas investigações ultra-estruturais deram origem a uma obra científica que se dispersa por um amplo campo de interesses.

Na Faculdade de Medicina de Lisboa, a sua direcção ficou assinalada por uma marcada evolução na organização administrativa da Escola, que muito foi beneficiada pelo prestígio de que gozava junto do poder político.

O Professor Xavier Morato foi um notável pedagogo: as suas exposições possuíam invulgar clareza e uma apurada elegância. Os textos das suas aulas originaram publicações didácticas de referência, constituindo peças modelares de actualidade, rigor de escrita e elegância formal.

Ayres de Sousa [1957/1959]

Ayres Francisco Nicéforo de Sousa


Ayres de Sousa foi o 51.º Presidente da Sociedade e o único que consagrou toda a sua actividade profissional à ciência radiológica, especialidade onde alcançou posição de grande notoriedade numa época em que esta área médica adquiriu proeminência científica em Portugal e prestígio no estrangeiro. São de sua autoria trabalhos pioneiros sobre quimioangiografia e microangiografia, que o consagraram na elite da geração médica que sinalizou no mundo a Medicina de Lisboa.

Ayres de Sousa foi, assim, contemporâneo e também protagonista da que veio a ser reconhecida como a escola portuguesa de Angiologia, que teve em Egas Moniz, Reynaldo dos Santos, Lopo de Carvalho, João Cid dos Santos e Sousa Pereira as suas figuras mais emblemáticas.

A actualização dos procedimentos técnicos de contraste que iam sendo introduzidos na radiologia para visualização de estruturas e órgãos teve a sua dedicada atenção, e foi pela sua mão que surgiram em Portugal os contrastes com eliminação electiva pelo rim e pela vesícula biliar.

Com preocupações culturais ligadas às suas raízes, Ayres de Sousa desenvolveu um valioso trabalho de pesquisa sobre a Medicina Portuguesa no Oriente e em especial no Japão. Estudioso, cultivou a sobriedade, predicados que espelhou no seu mandato de Presidente da Sociedade.

Cândido Oliveira [1959/1965]

João Cândido da Silva Oliveira

Cândido de Oliveira, o quarto professor de Bacteriologia e Parasitologia da Faculdade de Medicina de Lisboa, ocupou a cátedra durante 35 anos, e a sua acção influenciou os bacteriologistas portugueses de modo significativo.

O seu importante trabalho de investigação sobre o vírus rábico (tese de agregação) não teve infelizmente continuidade. Introduziu no País a vacina antituberculosa BCG, administrada fresca a todos os recém-nascidos em Portugal durante muitas décadas.

Foi um bom pedagogo e muitas das suas aulas de síntese foram publicadas na Lisboa Médica (Brucelose, Rickiettsioses, Vírus filtráveis, Gripe, Meningococo).

A sua sólida formação laboratorial levou-o a dirigir o Serviço de Análises Cínicas no Hospital de Santa Maria, inaugurado em 1954.

Pela primeira vez foi a Bacteriologia individualizada no seio das Análises Clínicas, o que foi repetido nos hospitais escolares do Porto e Coimbra e, muitos anos mais tarde, em outros hospitais centrais.

Cândido de Oliveira foi um estudioso do Ensino médico, de que é exemplo a sua modelar oração de sapiência na Universidade de Lisboa em 1966, onde estão previstas, antes do tempo, as modificações principais que hoje estão implantadas nas Faculdades de Medicina portuguesas.

Cid dos Santos [1965/1969]

João Afonso Cid dos Santos


João Cid dos Santos foi um expoente alto da Medicina Portuguesa do século xx. «Um génio», assim o definiu profeticamente o seu mestre René Leriche, com quem havia trabalhado em Estrasburgo durante a sua formação cirúrgica.

Professor universitário, investigador, pensador, parlamentar, artista e criador de discípulos, nunca parou de pensar e de idealizar; predicados que se expressam numa frase que lhe era comum ouvir dizer: «o pensamento não tem horário».

Cid dos Santos, Homem com qualidades invulgares, abraçou as duas culturas de Charles Snow com vigor, pujança física, audácia e insatisfação intelectual.

O livro Cid dos Santos. Personalidade e Obra, editado pelos seus discípulos, oferece uma perspectiva impressionante da sua actividade e valoriza os aspectos mais salientes do seu perfil humanista, da sua rejeição da mediocricidade e da sua enorme capacidade de trabalho.

Impôs-se mundialmente na cirurgia vascular como introdutor da técnica da endoarterectomia, em 1946. As suas descobertas científicas reflectem que nem sempre a investigação clínica é necessariamente dispendiosa e que, por isso, não está impossibilitada de ser bem sucedida em países com recursos mais limitados.

Mantendo com seu pai, o Professor Reynaldo dos Santos, uma estreita ligação, singrou com perfeita autonomia pelas suas superiores qualidades.

Jorge Horta [1969/1975]

Jorge Augusto da Silva Horta

Jorge Horta foi o 54.º Presidente da Sociedade e um dos mais prestigiados patologistas da sua época. Discípulo de Wohlwill, mestre reputado da escola germânica de anatomia patológica criada por Virchow nos finais do século xix, Jorge Horta aproveitou a oportunidade que a vida lhe proporcionou e revelou-se um continuador fiel de tão eminente figura, desenvolvendo a escola e fazendo novos discípulos.

Os trabalhos científicos de Jorge Horta sobre a paramiloidose, a suberose e as lesões associadas ao torotraste, tornaram-no internacionalmente conhecido.

Jorge Horta possuía inegáveis qualidades de liderança, que o levaram a desempenhar cargos de chefia em numerosas instituições.

Todavia, era como professor que mais se sentia realizado. No momento da sua jubilação, afirmou com genuína sinceridade «… antes de tudo fui professor».

Jorge Horta dirigiu a Faculdade de Medicina de Lisboa em época de grande contestação universitária, que superou com o bom relacionamento que estabelecia com os estudantes. Como Bastonário da Ordem dos Médicos impôs respeito ao poder político da época, tendo na sua presidência sido elaborado o «Relatório sobre as Carreiras Médicas», de que foi relator Miller Guerra, e que constitui o documento de referência da profissionalização médica nas instituições públicas.

Jorge Horta, Presidente da Sociedade quando esta ocupou as suas instalações actuais na Avenida da República, era possuidor de um invulgar carisma, e deixou um vasto legado na História da Medicina Portuguesa pelas suas qualidades de pedagogo, investigador e profissional distinto.

Torres Pereira [1977/1985]

Artur Torres Pereira

O Professor Artur Torres Pereira serviu, por um largo período de anos, a Sociedade das Ciências Médicas, como Secretário e Presidente (1967-85), emprestando-lhe o cunho organizado e meticuloso da sua personalidade e uma vincada liderança na defesa dos ideais da excelência intelectual da profissão médica.

Torres Pereira iniciou a sua carreira académica com trabalho meritório na investigação da biologia dos estafilococos, área em que alcançou, à época, justo reconhecimento na literatura internacional. Foi um cultor da microbiologia clínica, a que devotou a sua carreira assistencial, que concluiu nas funções de Director do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, instituição nacional com maiores pergaminhos na investigação das doenças infecciosas.

Conservador nos valores, foi inovador nas ideias, ajudando a abrir caminhos novos para a sua Escola e para a educação médica.

Dirigiu a reactivação do ensino no Campo de Santana que veio a dar origem à Faculdade de Ciências Médicas, é sua a paternidade mais legítima da moderna reforma curricular do ensino da Medicina, desenvolveu, por vezes solitário, um tenaz combate pela importância da medicina preventiva no curso médico, deu lugar académico à Medicina Geral e Familiar, ligando-a ao conceito de o ensino médico se centrar também na comunidade. Por essas áreas foi semeando discípulos que ampliaram a dimensão da sua obra.

Personalidade de grande robustez moral, Artur Torres Pereira teve uma vasta intervenção universitária e cívica em palcos variados, foi dedicado a causas e a instituições, com espírito de serviço público e dimensão de figura nacional na Medicina das últimas décadas do século xx.

Ribeiro da Silva [1986/1995]

João Manuel Ribeiro da Silva

Sucedendo a Artur Torres Pereira como Presidente da Sociedade, João Ribeiro da Silva exerceu três mandatos consecutivos, que ficaram, em muito, ligados aos esforços bem sucedidos para criar a Academia Portuguesa de Medicina como o lugar das elites médicas do País.

A sua carreira profissional recebeu notória influência de Almeida Lima, que o orientou na investigação sobre a electrofisiologia da retina, a que deu dedicada atenção e de que resultaram trabalhos meritórios.

Chegando novo à cátedra, após um percurso académico breve e brilhante, jubilou-se em 2001 como professor decano da Universidade de Lisboa.

A actividade de direcção assistencial do Professor Ribeiro da Silva repartiu-se, durante quase três décadas, pelo Serviço Universitário do Hospital de Santa Maria e pelo Instituto Oftalmológico Dr. Gama Pinto, instituições que marcou pela sua vincada personalidade.

Após jubilação dirigiu por alguns anos o Centro de Bioética da Faculdade de Medicina de Lisboa, a cuja criação esteve ligado. Aí organizou seminários e cursos de mestrado, editou textos e estimulou trabalhos académicos que deram inegável reputação à sua Escola neste domínio.

O Professor Ribeiro da Silva foi um universitário de voz livre e escutada. A sua intervenção foi, por isso, muitas vezes solicitada quando havia dificuldades no entendimento entre os homens e as instituições.

Agregador de vontades e de pessoas, procurou que a Academia Portuguesa de Medicina, uma das suas paixões maiores, fosse olhada como guardiã dos valores éticos e humanos da profissão médica. Seu primeiro presidente, em 1991, Ribeiro da Silva orientou-lhe os passos para uma caminhada autónoma da Sociedade das Ciências Médicas, internacionalizou-a e colheu o reconhecimento do seu próprio prestígio ao ser eleito Presidente da Federação das Academias da União Europeia em 2001.

Mendes de Almeida [1996/2000]

José Manuel de Brito e Castro Mendes de AlmeidaO 57.º Presidente da Sociedade, José Manuel Mendes de Almeida, é um dos mais brilhantes cirurgiões da sua geração, muito tendo prestigiado todas as instituições onde trabalhou e em que atingiu as mais elevadas posições de chefia técnica (Hospitais Civis de Lisboa, Instituto Português de Oncologia de Lisboa, Hospital Cuf-Descobertas).

A sua actividade de cirurgião e os seus trabalhos em patologia tumoral do esófago, estômago e recto deram-lhe voz respeitada nestas áreas médicas, e justificam o reconhecimento internacional dos seus méritos, nomeadamente o título de membro honorário da prestigiada Association Française de Chirurgie.

À Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa prestou apreciáveis serviços como seu Secretário-Geral durante 14 anos, colaborando com os dois presidentes que o antecederam. Sob o impulso de João Ribeiro da Silva empenhou-se, com êxito, na delicada tarefa da criação da Academia Portuguesa de Medicina, da qual foi o seu 1.º Secretário.

Foi com mérito que presidiu aos destinos da Sociedade no mandato de 1996-2000, período em que organizou, com assinalável êxito, os Congressos Nacionais das Ciências Médicas.

Lobo Antunes [2000/2003]

João Lobo Antunes

João Lobo Antunes foi o 58.º Presidente da Sociedade e o último biografado deste volume. Após uma carreira escolar de que ficou lembrança na Escola, rumou para os Estados Unidos «um pouco por acaso», que veio a ser uma forma de destino feliz, como relata no seu tocante ensaio Memória de Nova Iorque, cidade onde trabalhou e «cresceu» durante mais de uma década.

No Departamento de Neurocirurgia do Instituto de Neurologia fez o treino técnico e científico que lhe modelou um projecto profissional de rigor e exigência. O trajecto académico iniciou-o na Columbia University e teve ponto de chegada em Portugal, a que voltou, em 1983, para se submeter aos julgamentos concursais da sua Faculdade e adquirir os graus universitários que o levaram à cátedra em 1984. De Almeida Lima, seu mentor, veio a suceder na direcção do Serviço de Neurocirurgia do Hospital de Santa Maria, que prestigiou muros fora, ocupando lugares de liderança em sociedades neurocirúrgicas internacionais e servindo no corpo editorial de exigentes publicações periódicas dessa especialidade médica.

Na Faculdade de Medicina de Lisboa foi inspirador e motor de transformações decisivas para o futuro da escola, que soube mobilizar durante um consulado longo e frutuoso na liderança do Conselho Científico. Impulsionou a criação do Instituto de Medicina Molecular, sala de visitas da Faculdade, onde acolheu e orientou com mão sábia alguns dos mais promissores talentos, que se revelaram valores de referência da investigação biomédica internacional.

Voz disputada em variados palcos pela elegância do estilo e pela singularidade do pensamento, João Lobo Antunes trabalhou com melodia a palavra escrita, que veio a ter consagração em 1996 com a atribuição do Prémio Pessoa.

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