18. Bento de Sousa

Manuel Bento de Sousa foi um famoso clínico, cirurgião, anatomista, primoroso escritor com elevada faceta de polemista e, por fim, agricultor.

O órfão de dois anos, recolhido pelos Condes de Murça que lhe proporcionaram esmerada educação, nunca esqueceu, ao longo da vida, a carência afectiva inicial. Sentia o meio mesquinho e não estimulante, o que o teria levado a escrever A Parvónia.

Arrastou um gradual desânimo que adicionado a razões de saúde poderão justificar a longa vivência final em Azeitão durante dezassete anos. Com efeito, o uso de ácido fénico então corrente no penso de Lister desencadeava e agravava a sua enxaqueca crónica.

Afastou-se então dos actos cirúrgicos tendo trocado a sua cadeira de Cirurgia pela de Anatomia em 1881, que só regeu durante um ano.

Mas o polemista retirado em Azeitão ainda dedicou dezenas de páginas à «Epidemia extravagante» de 1894, contestando vivamente, como colerista, as conclusões de Câmara Pestana sobre o agente responsável pela epidemia.

Este ilustre cirurgião atingiu o maior prestígio e autoridade clínicas do seu tempo. Todavia os poucos trabalhos científicos que o consagram até hoje são de Anatomia (sem dissecção), com cariz anátomo-fisiológico.

Uma pura elaboração intelectual, sem confirmação prática, conduziu-o à descoberta da função gustativa do nervo intermédio de Wrisbreg.

Com o clínico afamado coexistiu o literato d'A Parvónia, quadro caricatural dos costumes da Capital, e d'O Doutor Minerva, crítica humorística ao ensino da História de Portugal.